Conversa com Nivaldo da banda Kaos 64

 

Entrevista com Nivaldo do Kaos 64, banda que está pra chegar em Cuiabá. A banda faz parte da história do punk no Brasil. O Coletivo Ação Punk está organizando essa gig, com outras bandas cuiabanas como a Ruídos de Horror, o Caximir e a Peste Bubônica. Quando fechamos a vinda deles, fiquei curiosa pra saber mais coisas, da banda e sobre o que ela acredita. Então busquei na net shows e entrevistas, mas percebi que não tinha muita coisa disponível em forma de textos.. Fiquei com muita vontade de conversar com o Nivaldo, por ser ele o cara que atravessou os anos com a banda Kaos 64, é o vocalista e está nela desde o início… Pedi a ele uma entrevista, ele aceitou, mandei por escrito umas quatro perguntas. Daí ele disse não podemos conversar aqui pela net? Cara, lógico que é bem melhor.. Então está aí, essa foi a conversa com Nivaldo, da banda Kaos 64, feita na noite de sábado, dia 26.

Ana Paula – Oi Nivaldo. Tudo bem? Estamos ansiosos esperando a banda para o show dia 31…

Nivaldo – Eu espero conhecer mais uns amigos e fazer um bom som aí pros punks da sua cidade. Deve ser lindo aí…

AP – Não é muito lindo não. A cidade está detonada ainda com os resultados da Copa do Mundo… E diferente de São Paulo ela não tem essa grandiosidade de uma metrópole, que conserva seus prédios com arquitetura antiga em meio ao moderno..

Nivaldo – São Paulo é uma cidade proibida

AP – Como assim rs?

Nivaldo – É uma cidade onde tudo é proibido, liberdade de expressão só existe no papel.

AP – Morei uns anos aí. É chocante ver a multidão como um rebanho pela cidade, os sistemas de controle…

Nivaldo – É um sistema. Onde se inventa formas de controle mental para se dominar as pessoas. Nas cidades são criadas as diversidades, mas logo elas são proibidas.

AP – Nivaldo, queira que você falasse um pouco sobre o visual punk… Não sei se você assistiu o programa do SBT (exibido no domingo 20 de setembro desse ano) sobre os punks… Mostraram uma galera bem jovem de visual, mas o programa conduz de uma forma que deixa uma imagem um tanto ruim deles… E você usa visual…. O que você achou?

Nivaldo – Para mim o visual punk eh um protesto. Eh o que mostra o que somos e o que vivemos. Quem eh punk não precisa usar o nome punk pra mostrar que eh punk. Não eh camiseta de bandas que mostra que somos punks, o tempo mostrará que serão os sobreviventes do punk… O visual punk eh soh pra punks, não para idiotas que tentam mostrar que são punks…

AP – É contestador… Mesmo hoje com tanta diversidade como você falow, onde cada uma busca se exprimir sem barreiras… Ainda assim o visual punk é forte e agressivo. Isso me lembra outra coisa: a questão de atualidade. Não só o visual mas as músicas, ou os desejos políticos de liberdade, de não se esperar que um representante político faça por nós… Isso sempre houve, e há, não se perde a atualidade.

Nivaldo – Estou nessa vida desde 1980. Vi muitos e muitos passageiros que passaram e o visual sempre vai existir para os punks. Não para idiotas que tiram foto de visual para postar na net. Esses são passageiros, os verdadeiros <<

E esses documentários que passam na mídia nunca falam que somos atitude e resistência de protesto. Eh soh promoção pessoal.

Ana Paula – Fico muito grilada é com a manipulação que eles fazem, botam um monte de gurizada e abusam disso, de uma vontade de aparecer mas também de alguma inocência em relação aquele mecanismo todo…

Nivaldo – Eu não sou conivente com o sistema quando vejo o estado vir no subúrbio executar jovens, jovens são exterminados como lixo… Temos que mudar esse curso de sistema classista, racista…

AP – O punk só pode ser ligado a uma classe social?

Nivaldo – É sim, punks de atitude sim… Aki em SP tem uns punks de atitude, punks que sempre fazem som para arrecadar alimentos para instituições carentes…

AP – Mas não seria também uma revolta, independente que classe social está, uma revolta em relação a um mundo tão desigual, quero dizer não há razão pra lutar se você não é aquele que mais é explorado, porque explorado todos somos, não pode existir um não suportar esse mundo do que jeito que ele é?

Nivaldo – Eu vejo de um jeito o mundo… Acho que cada pessoa veh de um jeito… soh uns têm coragem de agir, gritar, protestar, outros não… Outros aceitam o que o sistema dá pra eles…

AP– Você é um anarquista?

Nivaldo – Sou. Sou anarquista punk. Não sigo regras de livros. A elite escreve regras de anarquia. Sou livre e sigo o que tenho que seguir, minha vida, minhas liberdades…

AP – E o que é referência pra você?

Nivaldo – Quando me olho no espelho. Não sigo ninguém e não quero que ninguém me siga..

AP – Não corre o risco de se tornar individualista assim…

Nivaldo – Não, eu falo o que penso, sou o que sou… Quem estiver comigo eh porque realmente acredita no que somos e no que vivemos…

AP – E as bandas punks, são armas de guerra?

Nivaldo – Têm muitas bandas que falam que é punk aki no Brasil e detestam punks… Estão acostumadas eh a ser famosos… Usando o nome punk… Não gostam de punks e que eles vão em seus teatros de farsas… Fodase esses idiotas..

AP – O que te dá impulso pra seguir com a Kaos 64 pelos anos afora superando qualquer dificuldade que possa aparecer?

Nivaldo – Quando o Kaos 64 toca para quem vive o movimento de protesto. Dificuldade não vejo nenhuma quando se faz o que nascemos pra fazer.

AP – E o rolê, você vai?

Nivaldo –  Sempre ando sozinho nos meus protestos. Protesto combinado não é protesto.

AP – Saquei. Protesto então não tem haver com manifestações, mas sim com uma atitude diária, é isso?

Nivaldo – Isso, é viver o movimento punk sem hora pra protestar.

AP – Muito massa conversar com você Nivaldo, não vejo a hora de estarem aqui… Vocês têm que fazer um passeio pra Chapada dos Guimarães, não podem ir embora sem fazer esse passeio… Gosta de natureza essas coisas?

Nivaldo – Nossa, quando não puder tocar mais vou morar no meio da selva ou nas montanhas…  E aí em Cuiabá têm muitos punks?

AP – Olha, tem um movimento underground já antigo, mas punk que é bom não tem muitos…

Nivaldo – Normal aki em São Paulo também não rsrsrsrs…. Mas eh assim mesmo, não podemos pregar o punk pra quem não gosta da fama que a mídia dah…

AP – Como assim, não entendi…

Nivaldo – Ser pregadores…

AP – Divulgar as bandas, divulgar as músicas?

Nivaldo –  Isso sim, mas eh feito em protestos de banda, não forçar uma coisa, como um partido político…

AP – Legal você falar isso…

Nivaldo – Você conhece SP?

AP – Sim, morei até o ano passado, fiquei cinco anos…

Nivaldo – Ah tá, e nunca viu o Kaos 64 tocar?

AP – Infelizmente não…

Nivaldo – Então, eh que não gosto de tocar em certos lugares que os punks do subúrbio não vão… Eh proibido punks de entrar, tem que tirar todo seu visual aí já viu rsrsrs!!! Muita geral na portaria rsrsrs… Já basta dar gela rsrsrs…

Tem muitas bandas gringas que vêm tocar aki em SP e perguntam aonde estão os punks rsrsrsr….

Onde você morava aki em SP?

AP – No centro, perto da São joão, na Nothmann, antes na Vitorino…

Nivaldo – Você deveria ter ido num som de subúrbio rsrsrs, iria ter outra visão… Mas oportunidade de conhecer esses sons vai ter… Quando tiver um festival de bandas te convido pra vir a SP.

Você tem banda?

AP – Sim, a banda Peste Bubônica que também irá tocar no dia 31. Estamos esperando vocês…

Nivaldo – Se o avião não cair nos chegamos…

AP – Não diga isso… Muito obrigada pela conversa Nivaldo.

Nivaldo – Estamos aqui para protestar.

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4 comentários sobre “Conversa com Nivaldo da banda Kaos 64

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