O Passante

Acendeu uns cigarros, abriu a sacada e notou que aquele dia tinha um tempo diferente. O frio chegou sem notícia, aliás, como sempre naquela cidade que se acostumou a ser castigada pelo calor. O vento frio, no entanto, trouxe novidade no coração de Marcos. Cigarro em punho, instalado levemente entre os dedos, como de um ator americano de faroeste. Melhor ainda quando dançava no canto esquerdo da boca, não deixando que ficasse impossibilitado de, às vezes, falar consigo mesmo, já que não tinha ninguém por perto e também não fazia questão mesmo. O cigarro foi aceso naquele mokmento para uma comemoração. Acendou-o e apoiou o braço na bancada da sacada para ver as pessoas lá embaixo, como elas se viravam com o frio.

Marcos gostava de se comparar a outras pessoas. Ainda que tenso, não perdia a oportunidade de ver em qualquer ser humano um traço ou vestígio que o identificava como pertencente àquela espécime. Também gostava de estar sozinho, mas não se sentia sozinho, desdenhava as previsões dos outros sobre solidão, amor, paixão ou qualquer emoção extremista que lhe tirasse o prazer de mero obrvadore. Ganhava sozinho as ruas agora, calmamente, observando até os observadores. Tranquilo. Neutro. Nada queria mudar, não poderia ser causa de nenhuma mudança.

Resolveu aquele dia caminhar, pois fazia frio e valia a pena comemorá-lo. A noite demoraria a chegar e poderia passear para organizar seus pensamentos. Nada de anti-convencional atrapalhava a sua mente. Não, não era obscuro, nem tinha grandes dramas familiares. Comia sozinho e gostava. As panelas sobravam pra outro dia mas não fediam, não o incomodavam.

Aconteceu violentamente e Marcos só agora notou. Talvez tivesse andado uns 6 km. O frio era inútil, agora, em sua felicidade efêmera que antes mereceu comemoração Precisava voltar, havia deixado as portas destrancadas e a alma um pouco destrancada.

As pessoas passavam e ninguém olhava pra ele. Sécula da Invisibilidade. Ninguém enxerga ninguém. Cãimbras. Não sentia mais as pernas e ninguém o olhava. Ele quase voava, será que alguém poderia se aproximar? Caiu. Sentiu vagamento o desmaio lhe surgir como uma doce morte. Gostoso… Os homens passavam, as pessoas não podem parar, as panelas no fogo, as crianças esperando o amor todo só para elas, os amantes no cio, o barulho dos carros foram ficando longe…. Deu uma paz aquilo.

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