O Gato e a Mulher

Sobe a rua sem ser notado, e, sendo um gato, agilmente, e de forma leve e atos decisivos e vigorosos – eu mesma notei que eram quase violentos – chegou em frente a casa.

É claro que eu pressentia a sua vinda, e quando chegou eu estava a sua espera. Meus olhos permaneciam em súbita escuridão, e todo o delinear dos homens e mulheres que por ali passavam não poderia ser despercebido. Com o despertar dos olhos todos os meus outros sentidos haviam sido aguçados.

Eu não fugi, mesmo sabendo de sua chegada.

O vento e o hálito da noite traziam o gato. Traziam dos sonhos intensos que o marcavam profundamente, constituindo até amansar seu breve coração. Na noite eterna ele ganha as ruas.

Lentamente ela o levava para minha casa, casa de fim de rua, um fim de rua que não fecha, mas que se abre até ser visto um morro, onde no alto uma capela rege a presença do homem.

A paixão e o sangue nas veias tornam-se densos. Ligados pela noite e pelos sonhos curtos e compulsivos do gato, eles se atraem ao dispor de suas vontades. Como uma dor adquirida no fim que origina um começo, o destino os leva para as ruas escuras do tempo onde irão se encontrar.

O pelo reluz na clarineta de um homem distraído que toca no bar da esquina, contrastando com a predominância plúmbea da rua de pedras de ar limpo e imóvel. O pelo negro levemente eriçado. O rosto largo e os grandes olhos, grandes e amendoados, de um verde que só as cobras saberiam ter.

A noite era envolvida por uma brisa quase fria quando passava, por vezes, uma corrente de vento.

No último andar de um pequeno prédio, uma mulher fuma um cigarro numa janela entreaberta, mas ela também, de tão imersa em sua solidão, não o vê passar.

Naquele momento os homens noturnos eram a minoria no espaço da cidade, nas casas as janelas mostravam uma opacidade do escuro fechado em si mesmo, carregado de sonhos e respiração pesada.

E a história era traçada por um canto de lamento de homens que quase nunca sonhavam. O gato em seu lento e compassado caminhar já estava na porta da casa daquela que seria a sua mulher.

O seu amor por ela era grande como o amor pelo céu escuro que envolve a cidade ofegante, o seu amor permitia enxergar já nos olhos que brilhavam já a sua espera toda a fera dentro dela, contida até aquele momento, como se esperasse por ele pra entregar nele todo o seu ódio amoroso do mundo, sua fúria em vida, soltar suas garras e perder de vez morte que a rondava.

E era bela e pontual na escada envolvida pelo manto da certeza e da entrega.

O gato a tomou nos braços com toda a eternidade que ele poderia oferecer. As pupilas se acenderam.

Lado a lado, o gato e a mulher desceram a comprida rua que já amanhecia. Os homens e as mulheres amparados pela luz do sol permaneciam cegos enquanto eles passavam enamorados.

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