A noite se fez para Clara

Dor de cabeça. Sozinha, Clara resolveu andar pra ver se esquecia de ser, ao menos um pouco. No bar pediu uma bebida qualquer, era mesmo pra descansar os olhos. Bem nutrida fingia ser um cadafalso a sua vida, mas nada poderia ser comparado ao desjejum, perdida nas horas, sem encontrar resposta a vozes que emitia por pura vingança, vozes humanas ela poderia ouvir sim. Mentir que não havia nada pra se resolver com ela. Mentir que as dores de cabeça não provinham da sua mente inquieta. Ler livros de literatura clássica. Balzac poderia lhe dar um alívio, não se sentia mais tão amarela no anto da mesa. Era pura peça de arte. Criava personagens que se misturaram na lembrança e inventavam Clara antes dela pensar em ser alguma coisa. Vinham primeiro os arroubos que nunca encontrou e parou de sonhar. Ou parou de pensar em personagens que sonhavam se consolar em Clara. Agora Cláudia, depois árvolre tímida e rancorosa. Imensa, mas sem encontrar o céu. Agora Iara, perdida em contos de areia, com vento da praça a lhe ruminar.

Sentou no bar, nas mesas do lado de fora que refletiam o brilho do sol único de Cuiabá e pediu uma bebida para não parecer procurando alguém, pra não correr o risco de ser abordada, e tratada como frágil, de ser tratada como princesa esquecida e depois abandonada. Respirava mas poderia ser pedra e as pessoas passavam. Pensava sobre o céu azul daquela cidade, céu alucinógeno, naquele calor com aquele céu, parecia o inferno perto do paraíso, lado a lado.

Naquela manhã não acordou e o quarto anoiteceu. Um frio emanava das paredes, das luzes apagadas como um insulto azul-pertinente. Com olhos abertos e sem vida para existir, ela hesitou em sair da cama. Mas um medo a alcançou. Sentia no seu silêncio voluntário a agressão desse próprio silêncio, um medo que lhe comprimisse a cabeça, o corpo todo, que implodisse, seca e sem alarde.Morta sozinha num quarto escuro isolado numa casa vazia.

E se livrando do sentir, obrigar-se-ia a caminhar até o bar e pediria uma bebida. E eles passaram: pessoas são pessoas, infelizmente. A vida lhe parecia tal que não mais existiam nem crianças nem cachorros vadios nas ruas. Apenas Clara que não lembrava ter sido criança e os cachorros presos que acharam nela uma diversão.

Podia acreditar fielmente ser invisível. As pessoas são pessoas e passam, tropeçando nas pernas de mesa, engarrafando-se nas portas dos banheiros, e conquistando com bafo esquizofrênico qualquer um que queira ser conquistado, não se pode perder a noite, a noite é da conquista.

Entre vencedores Clara não se encontrou. Eles não a viam. No bar não havia solitários. E ela poderia ser notada, mas não o era.

E sentiu um alívio. Não queria mesmo ser vista.

Notou os passos dele, parecia abrir uma trilha lançando-se ao desconhecido, não por coragem mas por puro desconhecimento da fraqueza. Clara se sentiu pequena e vulgar em sua presença. Percebia seu rosto limpo, e sua maneira que parecia não ensaiar modos ou antiqualquer coisa para não ser visto. Seu olhar era perdido como de um cego. Entrava naquele bar barulhento e cheio de pessoas que se entropecem para se sentirem vivas e atraentes como se absorvessem todos os desejos.

Enjoou-se em complacência, em autopiedade. Quem ousaria sentar em outra mesa em sua frente, encarnando o silêncio como só ela o faria? Não foi percebido por ninguém mas sua presença foi violenta à Clara.

Naquela noite ela ouviria sua voz e não iria falar consigo mesma. Naquele instante sentiu o prazer de querer falar com alguém, apesar dos riscos, afinal temia encontrar ali, naquele alguém sozinho que transparecia ser tão verdadeiro, verdadeiro no sentido de ser uma realidade, alguém que realmente existisse, e não um homem-produto, embalado pela força e em promessa de lhe transmitir segurança.

A mãe e o pai. A segurança. A angústia da solidão.

Sua voz interior iria ser som. Ela teria que falar-lhe. Ainda que corresse o risco de encontrar nele réplicas fragmentadas de falsa perfeição. de sentimentos mofados de tanto esperar encontrar o perfeito, que depois em amarga desistência pensa em modelar e lapidar o defeituoso.

  • Antes do sol nascer eu terei te conhecido – ele disse antes que ela pensasse em pontos e encruzilhadas.
  • Eu não procuro mais florestas virgens nem grandes mares povoados por seres fantásticos para me encontrar, mas me esqueci em meu quarto escuro com livros empilhados que me perturbam em noites quentes causando vertigens e alucinações quando não há ninguém pra chamar, não há vistos de passagem e num descontrole corro na rua para pedir um cigarro a alguém, mesmo que eu não fume, assim saberei se existo ou me imagino existindo – respondeu Clara em tom de monólogo.
  • Para inspiração de ser você em completude terá que se despir das armas de proteção, essa bomba-relógio que mata sua ingenuidade, tornando-a incapaz de ver você mesma no homem da esquina, aquele mendigo, a quem você pediu cigarro.
  • Não sei se o resumo da minha vida fui eu quem fiz ou se deixei que em breve, me acontecesse. Conheço de cor os caminhos do trabalho, do cinema, da biblioteca, as subidas, as laterais dos becos grafitados.
  • Se incomoda com os cisco no vidro porque sua visão se concentra naquele cisco, e tudo envolta se desfoca.
  • Eu tenho medo de já ter dito tudo e sentido todos os sentimentos disponíveis no mundo. Tenho medo porque tudo parece congelado, não há mais novidade, e não me sinto feliz nunca, de uma maneira esfuziante e natural, e tenho medo de você por me causar sensações que precedem óbvio.

Uma chuva repentina fez com que as pessoas acordassem de um estado anestésico no bar. A maioria das pessoas que conversava estava sentada em mesas do lado de fora, e com a chuva perderam a certeza de seus personagens. Quebrou-se o canto produzido pelas análises noturnas.

Quando Clara se virou novamente para ele… Sentia uma vontade tão grande de vê-lo na chuva.

Ele fugiu? Ou era um eco de sua imaginação?

Onde ele poderia estar?

Alguém a puxou pelo braço e falou rindo algumas coisas que ela achou melhor não entender. Levava-a para dentro daquele bar, e as pessoas falavam alto lá dentro.

Clara procurou entre eles: Impossível. Não sabia nem mesmo se aquele que a levava para dentro era ele. Não se lembrava de seu rosto ou sua altura. Nem seu tom de voz. Não saberia montar sua imagem e não saberia o reconhecer entre aquelas pessoas que falavam tão alto naquele bar.

Um zunido forte perturbou sua cabeça, era mais alto que as vozes. Mas do que perguntas, tinha que falar.

***

Os livros de literatura clássica empilhados no chão do quarto latejavam, ansiavam dolorosamente pelo contato das mãos de Clara, pelo peito de Clara, que os apertava, mastigando e engolindo cada história, sujeitando seu batimento cardíaco aos daquelas ficções, pulsando e cobiçando sua vida.

Clara entrou em seu quarto, saía de sua casa, às vezes esquecia-se de fechar as portas, de abrir as janelas, às vezes esquecia que andava pela casa o dia todo, pelo quarto, pela sala.

Não sabia o rumo que daria a sua história.

Na rua, os cachorros presos não latiam mais para ela. As ruas pareciam mais compridas, retas, como se não levassem a lugar nenhum. Andava por horas nessas ruas retas sem se cansar.

De não muito longe reconheceu sua casa, e a janela do seu quarto, como um milagre ruim em sua frente. Vontade de chorar. Havia outra rua. Andou muito tempo envenenada pela expectativa. A rua acabou em sua casa novamente, tentava a todo custo reconhecer o caminho de volta àquele bar, mas todas as ruas terminavam em sua própria casa, em seu próprio desespero. Por mais que buscasse caminhar em todas as ruas possíveis que tinham como ponto de partida a sua casa, as ruas terminavam como havia começado, por mais que caminhasse, as horas não passavam.

A noite estacionou esperando uma decisão.

Sua consciência espantou-se em sinceridade, transformando toda angústia em lucidez.

A noite se deteve para Clara que não encontrava mais o caminho do bar. Fez-se rua, asfalto e amplidão. Abaixou as estrelas para o contato das mãos. Exagerou o brilho da lua para cegar aquele olhar. Silenciou os humanos. A noite se fez para Clara. Que percebeu a existência da escolha, optou pela entrega ao abismo.

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