Uma leitura sobre a história e o presente

Leitura do texto A transição do feudalismo para capitalismo utilizando conceitos marxistas até uma leitura contemporânea com o texto A cruel pedagogia do vírus de Boaventura de Sousa Santos. Também faço referências ao livro de Michel de Certeau A escrita da história e O anti-Édipo de Deleuze & Guattari. 

Utilizo ainda como referência imagética a arte da banda Screaming Dead, de Cheltenham – Inglaterra, com a foto de Margareth Thatcher, a “mãe do neoliberalismo”.

Minha ideia é fazer uma leitura experimental de dois textos que articulam o capitalismo enquanto história e enquanto acontecimento.

O objetivo dessa leitura é, além de usar o capitalismo como objeto de teorização, pensado através do pequeno texto A transição do feudalismo para o capitalismo (in: http://revistas.utfpr.edu.br/pb/index.php/SysScy/article/viewFile/240/24)

e suas colocações sobre Marx, observá-lo também sobre o olhar contemporâneo no texto A cruel pedagogia do vírus de Boaventura de Sousa Santos (In: https://drive.google.com/file/d/12tD1AYu1hg243WkSqxTqOftZfh8q_YKq/view?fbclid=IwAR1_GesX_fnyXDtrGUPAG0NKmH0D7oA3bgu877LFwu-K_QKSTxYtes1bEt4

 no qual lança luzes sobre o presente enquanto vivemos o mesmo. Por isso mesmo posso dizer que essa discussão é política (filosófico-sociológico) porque  busca pensar a concepção de história e realidade. Está situado no plano político também por pensar a dialética aplicada ao capitalismo. E é política por final, por fazer uma atualização das sensações do momento presente.

Para enriquecer a discussão pretende de antemão fazer uso do conceito de história de Michel de Certeau, enquanto o resultado da relação com o outro: tanto das relações de poder quanto no discurso que se delineia por esses encontros entre sujeito-objeto, eu & o outro…. Assim ele irá dizer em A escrita da história (1982):

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Chamo atenção para essa concepção de história, porque ela abrange a ideia do discurso como um “saber dizer sobre aquilo que o outro cala” (p. 15), e sua narrativa“repete sempre o gesto de dividir. (…) O rompimento de cada período, como se os acontecimentos pudessem ser fragmentados, amputados do real, divididos em categorias, de se perder o que havia sido até então para se constituir como outra coisa, outro tempo (o Renascimento, a Revolução).

Ao distinguir o que aquilo que será a memória e aquilo que será esquecido, é matéria para reflexões sobre resistência, outros modos de fazer. Ainda de acordo com Michel de Certeau essa é uma singularidade do método ocidental, visto que essa forma de compreensão da história como passagem que expulsa o passado é uma característica da construção ocidental para compreender a realidade.

Essa leitura nos é interessante também porque ela nos favorece em relação ao método de trabalho de vários cientistas políticos e sociais que temos interesse como Michel Foucault, por exemplo,  ao perceber os discursos como resultantes de relações de força, e que ao mesmo tempo as relações de forças econômicas e políticas imprimem, juntas,  uma subjetividade, um modo de funcionamento social e psíquico, que é respondido coletivamente. E a verdade, intuito maior da ciência, ela:

Citação 2

Citação 2.1

E então temos que o exercício da composição histórica se apoia num modo de operar, em um modo de operacionalizar do poder político que irá criar uma cidade, com suas normas e regimentos de limpeza e de convivência e que por isso escreve (Michel Certeau: constrói) um sistema.

 

Da transição do feudalismo para o capitalismo

Podemos fazer uma leitura cronológica dos períodos que nossa história se constitui. Essa leitura, no entanto, ao trazer a filosofia do marxismo, empreende a dialética como visão de transformação social. A dialética de Marx bem reverbera com o pensamento contemporâneo, pois dialoga com o pensamento que estamos aqui buscando: a compreensão do presente não como uma ruptura em relação a um passado, mas sim constituído por escolhas, seleções, modos de funcionamento[1] que originaram uma maneira de pensar, uma maneira de ser enquanto ser social.

Vemos aqui o capitalismo como um conceito para nós. Vamos, ainda que como forma de ensaio, pensá-lo como um sistema, uma máquina de engrenagem simbólica também. Deleuze como filósofo pós-estruturalista, no fluxo de Foucault diz que o capitalismo é uma máquina, descodificante e captadora de desejos.

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Citação 3.1

 

Ao lermos essas páginas de Deleuze & Guattari busco pensar junto com o pensamento sobre Estado formulado por Toni Negri no qual se diz que existe o Império, a saber um mercado mundial, unificado, globalizado, e por outro lado há o Estado que precisa agir sobre esse mercado unificado com um sistema de regras, de normas, com formação de direito novo. Império “é um governo misto, no qual a monarquia se unia a aristocracia, e também a estímulos democráticos. As multinacionais capitalistas que criaram uma rede real do mercado, não permitem isso” (TV Cultura, entrevista 13/11/2013).

Por isso não podemos nos esquivar de pensar o início do capitalismo como resultado das interações entre estrutura e superestrutura: uma vida material condicionando a vida social, com já dizia Marx:

Citação 4

As transições históricas em períodos são meras figura de corte e seleção, e não compreendem a integralidade dos acontecimentos no que se refere às suas erupções de força e poder político, assim como mostraram Deleuze & Guattari e Michel de Certeau.

Se sob o ponto de vista histórico é compreendido essa transição como a transformação dos modos de produção, que surge juntamente com a burguesia, que não suprimiu a luta de classe histórica, mas apenas instalou novas formas de repressão assim como de resistência a ela.

Para Boaventura de Sousa Santos o estado de exceção impetrado pelas mídias em relação à pandemia é apenas uma forma de manter uma lógica da crise, ao dizer que ela explica a razão de todos os males., a crise patológica nos ensina a viver com ela, como uma doença incurável. Porque para o estudioso vivemos em uma crise há quarenta anos, ou desde 1980 quando o neoliberalismo se impõe sua lógica.  Na prática Boaventura aponta a apatia sobre a convivência constante com a miséria e a desigualdade social. Em segundo lugar isso resulta em um boicote contra as medidas e politicas de cuidados e direitos ao meio ambiente. Gostaria de sublinhar essa questão visto que é temática recorrente em outros intelectuais como Chomsky. Faremos leituras em outra oportunidade, mas aponto este como um dos motivos de alerta sobre a movimentação do império: mercado e Estado junto a uma lógica neoliberalista (construção-escrita), as medidas que suscitam daí em picos de crise, da segurança pública, às mutações da democracia que podem ser assumidas em estados de exceção.

 

Arte da banda inglesa Screaming Dead

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Se formos pensar o Brasil então, como exercício, vemos crise sobre crise, visto que é uma crise de saúde mundial e que por isso mesmo impacta em setores diversos como políticas públicas, saúde pública, economia, direitos humanos, ética, gerenciamento das cidades, discurso e mídias sociais etc. É uma crise também de significados, de conhecimento da própria história e formação social, pois vemos que a população brasileira se trai enquanto pensamento de autonomia e de valorização do conhecimento, da cultura e da arte.

Ainda assim a crise segue de forma destruidora a ensinar que, parece, infelizmente a humanidade em seu devir histórico fez escolhas custosas ao planeta por causa do seu modo de vida.

Sublinho novamente a mesma citação de Deleuze & Guattari: “Tomemos o exemplo de Roma: a descodificação dos fluxos fundiários por privatização por privatização da propriedade, a descodificação dos fluxos monetários por formação de grandes fortunas, a descodificação dos fluxos comerciais por desenvolvimento de uma produção mercantil, a descodificação dos produtores por expropriação e proletarização  – está tudo aí, a propriedade privada, a produção mercantil, o afluxo monetário, a extensão do mercado, ou da locação contratual da mão de obra, nada disso produz uma economia capitalista, mas um reforço dos cargos e relações feudais, por vezes o retorno a períodos mais primitivos da feudalidade ou do estabelecimento de um tipo de escravagismo (p. 296).

Termino este texto fazendo um convite a chamado de Certeau. O chamado para a escrita. Para a leitura de uma escritura da história que nesse momento mesmo estamos aqui dispostos a escrever. De que “escrever é encontrar a morte que habita este lugar, manifestá-la por uma relação do presente com seu outro, e combate-la através do trabalho de dominar intelectualmente a articulação de um querer particular com forças atuais” (1995: p. 22).

[1] Penso aqui rapidamente, sem fazer muito esforço no Dr. Morte. Sobre ele assim se diz no livro O filme-ensaio: Desde Montaigne e depois de Marker: “No ensaio retratístico de Errol Morris, Dr. Morte, o sujeito nominal é Fred Leucher, um inventor/engenheiro/investigador que constrói sua reputação melhorando e modernizando cadeiras elétricas para o sistema penal de Massachussetts. Seu sucesso em modernizar essa forma de pena de morte conduz, em uma lógica que confunde até mesmo Leucher, ao seu recrutamento como especialista em outros métodos de pena capital, incluindo sistemas de injeção letal e câmera de gás” (2015, p. 91). Penso também, como um reflexo, em Hanna Arendt em seu livro A banalidade do mal que compreende o mal desligado das questões de religião ou malignidade e vinculadas a uma separação artificial do homem e a natureza, como uma maneira de se utilizar do conhecimento, da técnica e da razção. Um fragmento sobre a análise do pensamento de Hanna Arendt:  Quem foi Eichmann? Trata-se do principal responsável pelo envio dos judeus aos campos de concentração. Em todos os relatos de Arendt, verificamos uma profunda perplexidade com a forma de Eichmann falar das suas atividades como carrasco nazista. Ele usava clichês, palavras de ordens e a moral da obrigação do bom funcionário para justificar o seu comportamento. Para ele, em nenhum momento, podia ser enquadrado como criminoso, pois apenas cumpria a sua obrigação, o seu dever. Eichmann era um ser humano normal, bom pai de família, não possuía nenhum ódio ao povo judeu e não era motivado por uma vontade de transgredir ou por qualquer outro tipo de maldade. No entanto, viabilizou o assassinato de milhões de pessoas. Foi justamente isso que levou Arendt a usar o termo banalidade do mal. Estamos diante de um tipo de mal sem relação com a maldade, uma patologia ou uma convicção ideológica. Trata-se do mal como causa do mal, pois não tem outro fundamento. O praticante do mal banal não conhece a culpa. Ele age semelhante a uma engrenagem maquínica do mal. O mal banal parece ser um fungo, cresce e se espalha como causa de si mesmo, sem raiz alguma e atinge contingentes enormes das populações humanas em diversos lugares da terra.

A pergunta de Arendt, ao se deparar com os depoimentos de Eichmann, foi: “o que faz um ser humano normal realizar os crimes mais atrozes como se não estivesse fazendo nada demais?” A resposta está no mal banal. Trata-se de uma prática do mal promissora nas sociedades massificadas, possuidoras de organizações econômicas, políticas e sociais potentes, nas quais os seres humanos tendem a se sentir sem poder, solitários, submissos e quase condicionados. Vivendo apenas como animal laborante, os homens tecnificam e burocratizam as suas obrigações e se tornam, desse modo, incapazes de pensar as conseqüências das ordens dadas pelos seus superiores ou grupos.  Eichmann, segundo Arendt, agiu igual ao cão de Pavlov, que foi condicionado a salivar mesmo sem ter fome. Ele não praticou o mal motivado pela ambição, ódio ou doença psíquica. Nada disso foi encontrado em Eichmann. A única coisa que chamou atenção de Arendt foi a sua incapacidade de pensar. In: https://revistacult.uol.com.br/home/violencia-e-banalidade-do-mal/ (acesso 26 de abril de 2020)

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