Áudio-Zine Khaos Urbano e reflexões

A ideia é fazer um diálogo entre a escuta do programa Khaos Urbano pensado sobre a ótica de Walter Benjamin e seus conceitos de tempo e história

 A intenção é problematizar o tempo do agora, o Jetztzeit para Benjamin, que é o autor ao qual fui remetida no momento em que ouvi o programa punk e hardcore Khaos Urbano Rádio Zine. Outro ponto que gostaria de afirmar é sobre a conduta política. Posso nomear rapidamente 4 razões para o qual proponho discutir aqui: 1. O momento oportuno para o entrelaçamento de ações em redes (privilegiando a ação individual  ou em grupo e conectadas nas redes espalhadas pelo Brasil) visto que estamos vivendo momento de fechamento de ideias políticas e atrofiamento e retrocesso de questões de abertura ética antes já resolvidas; 2. A conduta política de afirmação da vontade independente das mesmas questões exteriores elencadas, quando se diz respeito ao faça você mesmo (arte e política); 3. A afirmação da cultura punk rock ao atualizar os ouvidos com o que é clássico e subversivo no tempo do agora pautado na experiência musical coletiva do punk rock, uma intervenção via tecnologia do lugar-comum; 4. Khaos Urbano, o evento por si mesmo, carrega a força política ao se destituir de uma cara, um rosto individualizado e categorizado, ou mesmo de ter uma Eine Kaiserliche Botschaft (Uma Mensagem Imperial de Franz Kafka), Nada que possa ser mais importante do que o próprio ato de resistência em continuar. 

Certamente fui levada ao Jetztzeit, o tempo de agora ao sentarmos em casa para ouvir aquele que seria o primeiro ÁudioZine, e que no meu estranhamento àquele modelo novo de pensar a tecnologia do whatsapp que se encarrega de ser o transmissor da conversa do cotidiano, das trocas de conversa em torno de um trabalho em comum para um outro propósito bem mais nobre, que é o de ser transmissor no movimento punk sobreponho esse sentido benjaminiano de ser no entanto, um eterno transmissor de uma verdade que nunca será dita, a não ser se talvez a multidão se esbarrar na atitude muito mais do que na busca salvadora de alguma verdade final, dogmática. 

(Enquanto isso toca The Stranglers – No More Heroes naquilo que de início era uma surpresa e que de repente ser reproduziu: 4º áudiozine, ainda que o único no planeta)

Ares novos na ordem subjetiva, pós-moderna e burrotecnológica do whatsapp… Continuando o diálogo sobre a questão do tempo e seu uso enquanto fomentador político e existencial de uso da produção punk importa tanto quanto sua mensagem o punk rock e as diferentes parcerias que vão se formando no universo do programa: enquanto AnarcoNog e o técnico Carniça vão executando peripécias para driblar os inusitados acontecimentos cotidianos para fazer acontecer, vai-se assim também descompassando o tempo cronometrado, absolutizado, posto ao trabalho e ao pensar, ao resultado, para fazer do tempo continuação de 

uma história que está sendo narrada, (1)

ou a cultura, a história a ser compartilhada. Se Jetztzeit é o fundamento de um novo conceito de tempo, porque funda o possível dentro da realidade, e é isso que deve ser compartilhado, como possibilidade de não deixar a realidade sufocar, Erfahrung por sua vez é a transmissão da experiência em sentido pleno no qual a sociedade capitalista não permite com suas regras de cooptação, adestramento e servilismo. Mas estamos a falar justamente a partir da experiência de existência fora do economicismo capitalista, aqui estamos nos ocupando sobre o sentido de pensar o tempo e sua atualização enquanto condições necessárias para a transmissão de conhecimento em sentido pleno, que é a prática e a experiência (Erfahrung) se aliançarem para poder existir, é a chance do possível, ou contra-cultural, d’ aquilo que não está dado às regras do resultado, e por isso mesmo funda com sua existência o que para Benjamim é o conceito de engajamento. E é justamente o engajamento que para Benjamim é sinônimo de liberdade (ou autonomia), e que ele aponta a liberdade exaltada pelos burgueses como falsa pois o que eles definem como liberdade, está a mercê do mercado (2). 

No movimento punk dissociado disso tudo se forma não em contraposição ao sistema, mas no distanciamento em relação aos seus chamados, a afirmação da linguagem, jeito de ser,  estética, visual, musical que não se submetem ao lugar-comum das regras sociais. Essas regras forçam a repetição dos vícios de formação de personalidade graças aos traumas sociais e coletivos gerando grandes vertigens individuais e solitárias. Essa força de encarar e não deixar serializar (ou seja, perder o sentido de suas referências) , se não repetir mecanicamente padrões de modos de ser ganha-se força ao se atualizar nos acontecimentos criativos do movimento.  Aí está o melhor do punk. Ao invés de servir de eco em nosso microcosmo social para a repetição dos vícios e baixezas humanas que possamos investir na ocupação do tempo com boas músicas, aproveitar essa afinidade para tecer a realidade de muitas produções dentro do movimento seja de shows, discos (3), livros, num pico que se pode ser alcançado pela rotatividade do fazer desde que orgânico, como forma de vida. Por isso, sem conseguir dispensar essa leitura do filósofo Benjamim, projeto pelos seus conceitos algo que poderia depois ser dialogado com as redes de Wolfi Landstreicher de quem gosto muito, mas  temos uma sociedade ainda sufocada em sua anarquia, no qual teme e desconfia de si mesma, de seu uso da violência (e por isso admitiu a polícia), e de sua capacidade de autogovernar (daí nasceu o Estado)…. Por isso a leitura de Benjamin serviu bem para pensar sobre o tempo de agora, mas para mantermos a cultura da autonomia é preciso ressaltá-la nas palavras e nos gestos. Desejamos vida longa ao AnarcoNog e seu alter-ego Carniça, da técnica. 

 

  1. Os conceitos de Benjamin e o diálogo com o tempo é feito pela leitura do prefácio de Jeane Marie Gagnebin para o livro Magia e técnica, arte e politica – Ensaios sobre Literatura e história da cultura de Walter Benjamin. 
  2. Sobre autonomia do escritor, debate proferido em Paris de 1934 a qual fazemos uso pensando ainda num diálogo com o agora O Autor como Produtor 
  3. Como é o caso de nosso apoio cultural do selo Sinistro Records com o Áudio Zine Khaos Urbano, no qual o encontro abre possibilidade para ampliar os acontecimentos seja em shows, gravações, formação de bandas, troca e venda de nossos produtos, livros e vídeos…… 

 

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