Pra não esquecermos

Um senhor sério e compenetrado, velho judeu sobrevivente ao holocausto nazista, aguardava sentado na mesa de convidados a sua vez da fala. Antes, ouvia a fala do professor Felipe Rodolfo de Carvalho que cuidava para fazer de sua voz a possibilidade de alçar o peso do silêncio que foi imposto aos prisioneiros nos campos de concentração. Falava sobre o território de poder exercido no confinamento e a impossibilidade das questões filosóficas, porque essas foram soterradas pelas questões necessárias, a experiência abismal colocando fim às questões filosóficas as faz vazar nas dúvidas mais básicas sobre a vida e morte, sobre o que irá acontecer num futuro breve… A  morte numa caça que não diferencia se mulher, se homem, se criança, o que precisa é acontecer a morte, o projeto a ser levado a cabo é a pessoa humana aniquilada: “Antes de matar é preciso aniquilar a pessoa humana, aniquilado antes de morrer”.

Ao terminar a abertura do professor sublima-se o tempo presente, desloca-se o silêncio imposto aos prisioneiros e a superpopulação dos campos para a nossa própria sala, no qual estudantes, professores e interessados sobre o tema se espremem aos montes no auditório lotado e na sala anterior onde foram espalhadas caixas de som aos grupo que mesmo sem poder ver a mesa com os convidados não arredaram da sala se ajeitando como podiam.

A presença do velho judeu surge junto à sua memória da criança que foi caçada. Não mais vemos ali o senhor judeu sobrevivente do holocausto, mas a criança “excluída da sociedade” que agora tem o poder da fala. Seu discurso é sobre a guerra, a razzia[1], e o senhor Louis Frankenberg fala em nome das crianças que são reféns das mais insensatas violências cometidas pelos adultos. Ele diz “não tem como vocês chamam aí, menino de rua? Eu fui como um menino de rua”. Mas nos campos de concentração.

Fez uso da fala o senhor Louis Frankenberg conduzindo sem medo a pequena multidão espremida nas duas salas, sobre elas já não se era tão certo esse destemor. Afinal ele nos apresentava fotos de sua infância antes de lhe serem confiscada a vida pelos soldados que chegaram a sua casa, mostrou fotos do local que, já sem os pais, escondeu dos soldados que o procuravam numa sala escura, segurando com os dedinhos de menino de 7 anos um pano preto a sua frente, única proteção contra os soldados que miravam suas lanternas. Escapou, mas a diretora da escola atemorizada entregou-o aos soldados alemães. Fomos conduzidos pela memória sombria do senhor Frankenberg e não foi possível não sentir horror e uma grande desconfiança sobre o ser humano, sobre o poder, sobre a frieza da ordem, sobre a corrupção pelo medo.

O que todos viam à frente era um senhor que ainda não havia deixado o pequeno Louis. Enfrentou com ele todos os terrores ao rememorar num trabalho investigativo todas as suas piores lembranças, entre documentos, visitas aos locais onde morou ou passou em fuga dos alemães, na sua confusão mental entre imaginação e realidade confirmou coisas que pensou ser sonho do pequeno menino, como as cinzas de judeus jogadas no rio por uma procissão de crianças. O senhor judeu não deixou o menino ser abandonado no esquecimento, sobre o risco de permanecer soçobrado, sem seus pais e sua irmã. O senhor acompanha a criança porque sabe que ela ainda não encontrou a resposta e teme talvez que ela não suporte isso sozinha. Sobrevivente entre os 130 mil judeus holandeses que responderam corretamente à pergunta: “você conhece alguém que morreu aqui? – Não, não conheço ninguém”. Os outros 102 mil judeus que responderam “sim, conheço” foram os últimos assassinados da Alemanha nazista do pós-guerra: estavam realizando uma queima de arquivo.

O temor que sentimos não é à toa, totaliza como uma sombra sobre a mente e os desejos humanos, uma obscuridade chamada desejo de poder, no qual uma sociedade pode se tornar refém de ideias de exclusão social, de incitamento à violência, e ainda de abuso de poder que legitima a morte do outro, sempre coletiva, portanto sempre histórica, e por isso sempre com risco de que se abra uma fenda no tempo, e ela, a vida crua, o estado de exceção se instale, invisivelmente e cotidianamente, na sociedade que se ignora, que não produz um pensamento crítico sobre si, e que se guia à despeito da vida, da potência, da capacidade de empatia e pelo sentir pelo outro.

 

[1] Na referência do senhor Frankenberg, Razzia é a caça aos judeus.44392242_194948821401103_3546094960023437312_n44330649_293323418154959_3262728642924380160_n59a1cd61-e102-41af-bffc-ea49abb26d27

Senhor Louis Frankenberg no evento Holocausto, Memória e Esquecimento
Foto minha
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