Um diálogo feminista

No início só existe imagem. Vemos uma projeção de uma mulher outorgada de sua voz. Na projeção da imagem da mulher, ela aparece titubeante em relação aos seus desejos, insegura em relação às outras mulheres e suas intenções e predestinada a ser olhada, interpretada e conduzida. Se a luta por espaço social é uma constante na disputa de condução de sua imagem podemos concluir que a criação e manutenção de um discurso próprio valoriza e fortalece os laços e o manuseio de um universo simbólico e afetivo comum. A imagem feminina separada de sua dona não condiz mais com ela e a persegue exigindo dela que se conforme. A imagem é sua prisão.

A ideia de sororidade, aquilo de saber que o acontece com a outra acontece também com você, aparentemente de forma indireta, mas só aparentemente, abre a fina película que separa o corpo de sua imagem que escapou… Esse corpo agora quer se libertar dessa imagem roubada dele mesmo de tantas formas e numa repetição tão massificada, que agora esse corpo de mulher marcado excessivamente precisa se liberar de tantos “quer dizer que” para se conciliar consigo mesmo. A exigência do grau zero para que ele possa se inventar a partir de suas necessidades a priori, só percebida e tornada consciente após auscultar a si e a politizar seu momento, sua rotina, seus desejos, sua vida…

A imagem própria que ser quer criar é resultado de uma identificação e se estabelece mediante as relações. E sobre as relações de poder: aquele que parece ser o opressor é apenas o imediato que também responde à manutenção de um status quo. O caráter é de emergência.

Como se constitui uma família, como se forma uma cidade e do que se fundamenta a sociedade são conceitos que se modificaram modernizando ou civilizando suas bases e preceitos, de forma que a integridade de seus membros e suas propriedades possam ser mantidas e protegidas.

Mas que ser cambiante é esse que se opõe à sua própria luta invalidando-a? Que no momento mesmo de sacar suas armas e demonstrar seu posicionamento de combate incide sobre o campo não como uma punk Wendy que confronta violentamente com seu visual de tetas intimidadoras, mas como multiplicáveis anônimas e desconhecidas que (se) derramam  (n)uma sensualidade gratuita e servil nas redes sociais. Na embalagem contestação, no recheio subordinação ao olhar do outro.  A situação é de ser representada, ou de se apresentar submissa a esse olhar e a essa aprovação. O sonho do outro (Deleuze) engoliu você!

Então há muitas imagens, mas como elas colaboram entre si a fim de não nos submeter sempre ao estado inicial de uma imagem aprisionada.

Então por que pensar a questão de ser mulher? Se aparentemente não nos sentimos nem oprimidas, nem colocada em segundo plano, nem comparadas. Se as inconveniências acontecem sempre com outras mulheres, como ouvir um comentário desnecessário e que coloca a pessoa em seu lugar, ou um levantamento de opinião sobre o que se pode fazer sendo mulher, sobre a valorização da atitude feminina razoável, por que se incomodar se tudo parece ser em um ambiente que é assim mesmo e que não é o seu?

Quem sabe para exterminar esse sonho desse outro que nos toma. E organizarmos a vida coletiva com nossas prerrogativas. Decidirmos sobre a maternidade, e sobretudo liberar as crianças do subjugo adulto e despótico, para não sermos o prolongamento do Estado na sua educação. Para não afirmarmos o que nos detém: o Estado fascista que fala através de nossa ausência de fala e repetição de comportamento repressor (Virginie Despentes). Para que nos liberemos da manipulação capitalista que vende o sonho da família ideal. Para que possamos perceber a outra como amiga somente porque a entendemos. Para que não sejamos reféns dos homens nas guerras. Para que homens não precisem calar suas angústias ou fraqueza, para que possam pedir ajuda. Para que nos libertemos juntos da armadilha.

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