Sobre a aflição do agora

Qual é o nosso problema? O país, os políticos, a herança cultural?

A Europa, berço cultural da civilização se encerrou em si mesma. De lá chegaram os portugueses, um tanto desengonçados ao nosso ver… Começo de mundo arrastado e sofrido, um tanto primitivo no que diz respeito ao tratar-se. Falo da herança civilizatória. De qualquer forma fomos nos virando, repetindo o velho vício de odiar o outro, o que chega, o que difere, o que não tem poder de fala…

E de lá pra cá foram mortes acumuladas com o mais baixo das violências: contra o outro que no caso é o seu próprio, aquele que tem profundo enraizamento no que entendemos por ser história do país, como os índios ou os negros.

Da ditadura militar para cá as lutas por liberdade ganharam visibilidade. E com as lutas requeridas no plano político simultânea à abertura econômica e a liberdade de pensamento ocorreu um processo novo e ao que parece conjuminado ao estado de falência do sistema capitalista. O que era pra ser visto como um novo acesso a possibilidades de afirmação de seus modos caiu numa mesma malha que envolve tecnologia e apatia sociais, ao mesmo tempo que acessibilidade e complexidade de sentir empatia por questões que não as próprias. Junto com a possibilidade de adquirir jogos brinquedos carros bebidas viagens sensações gastronômicas assistimos a abertura e  a globalização ficar cara a cara com a intolerância.

Na Europa assistimos o colapso nervoso da tentativa de convivência, uma devido  ao genocídio e ao ódio frio/calculista/racional contra um povo e outra graças a óbvia incapacidade humana (até agora pelo que se vê e se entende de humano) de encontrar um ponto de convergência no que se refere a viver sem autodestruição.

Sabendo disso ficamos um pouco sem referência e exemplos na contingência histórica ao que se refere à velha e sábia Europa no que diz respeito a expectativa de civilização estar ligada a direitos humanos, democracia, cidadania, participação política, ao menos falando pelo nosso lado brasileiro.

Nem tanto tempo atrás experenciamos a energia vital de estar nas ruas, compreender a seriedade daquele momento pois  estávamos vivenciando o medo coletivo de uma volta à ditadura ou uma forte centralização de poder nas mãos de poucos. Em maio de 2013, graças ao uso da força policial em massa e a criminalização das manifestações e dos protestos pressentimos a sua presença sombria. E agora, pasmem, depois de um tempo do politicamente correto vemos levantar uma velha moral própria da história de nosso país, de uma herança que remonta à ditadura e faz reaparecer os pró-fascistas, os pró-machistas, os homofóbicos, os tapados cultural e artisticamente falando…

Sabe aquele ponto cego, que remonta tempo e espaço numa sincronia absurda como a dos buracos negros que a tudo engole? A história breve da humanidade na Terra parece ser um desses momentos no senses com acontecimentos tão repetitivos que se tornaram hábito ou característica de nosso tipo dentro da escala animal, a traição, a ação covarde, a brutalidade infame. Mas também o acordo, a corrupção, a ilegalidade dentro da legalidade.

Incoerência é a palavra atual, da vida que nada vale e de um estado de desproporcional poder dentro do que se chama democracia, mas também nos comportamentos e ações daqueles que formam o estado democrático, que lhe dão a materialização no cotidiano e na construção da realidade.

Desde a desativação dos movimentos sociais em torno de questões coletivas e existenciais para crescente ativação de grupos com questões mais subjetivas, individualizadas e pontuais a complexidade está em manter uma linha de coerência a fim de suportar a série de ataques ligados principalmente ao modo de ser, de pensar, de se configurar…

Contra isso que desperta força política acontece assassinatos políticos. Uma ação extrema que emite um recado. O assassinato político é a forma de matar não só a pessoa mas o levante que ela causa, a ideia que ela propõe de enfrentamento, de coragem… Intimidar um levante como no caso da prisão do morador de rua que foi preso em 2013 por portar em sua mochila pinho sol. Impedir uma tomada de consciência como no caso do assassinato de Marielle. É sempre contra a possibilidade esse tipo de ação criminosa. De que surjam nessas frestas perceptivas a abertura de uma mudança social, de um levante realmente maduro, de uma ação coerente.

O problema é que é tudo tão incoerente que é preciso pensar como se posicionar dentro de incoerência na sociedade, em sua criação de realidade, em seu dogmatismo recalcado. Na produção da nossa própria coerência, enquanto aquilo que acreditamos e assumimos como verdade para nós. Para os nossos. Como manter a integridade de desejo, de efetivação e afirmação no cotidiano após um ato de extrema violência  contra ativistas, contra os sem poder, contra os que escrevem, os que se posicionam?

 

 

 

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