Máquinas demolidoras de formas

Este é um texto que escrevi para o livro COPAS 12 CIDADES EM TENSÃO, uma aventura sobre os efeitos da copa do mundo no Brasil. O livro foi a última etapa de um projeto que contou ainda com a produção de uma cartografia antes dos jogos, uma série de intervenções nas cidades-sede e encontros virtuais e presenciais. Para a pesquisa que se inicia acredito ser este o cenário de Cuiabá, uma cidade que enfrentou os interesses políticos e mercadológicos de um dos maiores eventos do mundo. 

Somos máquinas. Máquinas modeladoras de tipos, grupos; ao mesmo tempo, somos máquinas demolidoras de formas. Porque somos também criadores e destruidores de sentidos, e aí está o potencial de nos reinventar.

Fluxo e refluxo em orquestração, em que se, por um lado, existe necessidade de compreender, resolver o mundo em significados, de reconhecer e nomear, há também outro movimento:nem absurdo nem normalizado, ele apenas se constitui na forma que o absorve. Esse movimento não é dialético, não há uma parte negando a outra.

Situamo-nos em um mundo de organizadas manifestações simbólicas, de representações que classificam ordenamentos sociais, regras de convivência, morais aceitáveis ou reprováveis. Nossa memória é requisitada a nos apontar como seres identitários, marcados pela prontidão da resposta a essa normatividade propagandeada e assimilada pelo nosso corpo. É aí, nessa linha, que pequenas lembranças se formam, que novos hábitos surgem e assim algo se solidifica nessa série de sentido selecionado, classificado e organizado. O que parecer ser de cunho individual tem dimensão global, na disputa por afetividades, potências, resistências, política, coletividades…

A invenção é o jogo mais delirante da necessidade. Somos chamados a vislumbrar um mundo possível. Nas cidades, estamos vivendo uma falta de sentido doentia. Não desse sentido que nos deram, que simula liberdade, mas é uma prisão, que se utiliza da comunicação, da mídia e usa a linguagem como espetáculo.

Vimos nos dias da Copa de 2014 o quanto estamos encurralados e traídos por uma ideia de democracia que é a falência de qualquer pretensão de virtude humana. Fomos sabotados e vislumbramos de uma maneira diferente a guerra em que estamos vivendo. Uma guerra que não é discreta, ela está acontecendo nas ruas, está fazendo seus mortos, e está abolindo ainda mais qualquer sentido que teime em resistir. Vimos a vigilância nas ruas não só nas manifestações, mas em qualquer reunião de pessoas, em locais públicos. Usando o discurso de que é preciso manter a ordem, criou-se um medo e o nome ao novo perigo: os vândalos. Essa ordem está falando, e é fácil entender o que ela diz. As vias, as praças, os bares, os lugares públicos na cidade foram tomados de sobressalto por figuras coercitivas vestindo fardas, expressando nos olhos a violência latente. Eles não falam, apesar de nunca se calarem, é uma violência muda. Tangenciam espaços, dão nomes, cospem fogos e choques. Mas querem ganhar pelo que não dizem. Mais intrusivos, eles querem nos condicionar e nos convencer de que somos fracos. Cuiabá não é São Paulo, Porto Alegre não é Fortaleza, Manaus não é Brasília e, no entanto, estivemos todos impactados pela invasão nas ruas por homens fortemente armados; presenciamos o trato desumano das remoções forçadas, nos vimos jogados com a gentrificação. Nós faremos absolutamente tudo para mostrar que o Brasil é um país civilizado não somente no contexto do futebol, mas também como país em si, como homens do governo e seus aparelhos de comunicação bradaram na oficialização da Copa do Mundo no Brasil.

Ser civilizado está em consonância com o projeto iluminista da servidão à padronização da beleza e da boa educação. Falando cruamente, isso significa desconfiar do outro, inspira o medo daquilo que difere, e foi isso que autorizou moralmente e oficialmente através das leis as remoções forçadas de famílias, da gentrificação nos grandes centros urbanos. Uma exibição cruel de que a igualdade social nunca foi mais que promessa de campanha ou pós-marketing.

Autoriza-se moralmente o uso de violência extrema por parte da polícia contra o que eles chamam de cidadão nos projetos de pacificação. Projeto de pacificação é um sistema de controle do cotidiano dos moradores de favelas; no entanto, são projetos vendidos para a população em geral como sendo um policiamento que se aproxima da realidade dessas pessoas, compreendendo suas carências e dificuldades.

Autoriza-se moralmente o uso de violência extrema por parte da polícia contra o que eles chamam de cidadão quando esse vai à rua em manifestações, investindo dinheiro público para adquirir as armas da Copa, que consistem em 2,2 mil kits com sprays de pimenta e de espuma de pimenta, granadas lacrimogêneas com chip de rastreabilidade, 8,3 mil granadas de efeito moral para uso externo e indoors e 8,3 mil granadas explosivas de luz e som; 8,3 mil de gás lacrimogêneo fumígena tríplice; 50 mil sprays de pimenta; 449 kits com cartuchos de balas de borracha e cartuchos de impacto expansível; 1,8 mil armas elétricas. E ainda: “3.700 militares, além de mais de 500 viaturas de diversos tipos, dentre elas: blindadas, mecanizadas, antiaéreas, de defesa cibernética, comando e controle, transporte de tropa e de defesa química, biológica, radiológica e nuclear. (…) Oito helicópteros das Forças Armadas – um deles equipado com o ‘Olho da Águia’, dois esquadrões de Cavalaria de Choque e uma seção de Cães de Guerra.”[1]

Seus inimigos são o micro, as formas de comunicação desviantes, as redes. E o que combatem é qualquer outro mundo possível que possa vir a reluzir, que possa se efetivar. Temem, pois sabem que novas relações, ligadas por afinidades políticas e afetivas, podem desestabilizar a ordem. E a ordem vem a custo grosso sendo naturalizada a ponto de parecer que é a única possível.

Por isso se articulam contra as operações que criam desordem e se perdem por não possuírem tática predeterminada. Mas eles sabem também que a revolta é um sentimento efêmero e que precisa de concentração, que se esvai facilmente, é delicado manter a sua coesão. E sabem de nossa força primeiro que nós, pois, a nós mesmos, parecemos tão desgarrados, tão provisórios, tão imediatos e apaixonados. Somos taciturnos e loucos de uma inteligência apocalíptica, de outro sentido.

A aventura mais cruel que podemos criar é o mundo possível. Todas as suas tropas e suas estratégias são provas da incapacidade de nos gerir. Somos inimigos desse Estado doloroso.

Estão brigando agora pela nossa alma, nosso pensamento, nossa maneira de experimentar o mundo… Mas nós não somos ninguém e pretendemos assim nos conservar, num anonimato desviante e coletivo. Querem roubar nosso olhar distraído, querem dar valor ao nosso pensamento. Somos profetas projetados na arte da desilusão, somos brasileiros e estamos acostumados a nos arrebentar num 7×1, como uma bomba implosiva.

Nossa resistência supera nossos próprios atos de dissolução, numa capacidade autodestrutiva que nos confere ainda assim uma permanência belicosa, inflamável.

A variação da potência ou da impotência coloca à prova nossa capacidade de fazer do sentido operante uma referência existencial, isto é, ultrapassar a linha definitiva da normalidade para compor traços novos da memória, vislumbrado essencialmente no que se vive, forçando a própria existência.

Algo dessa desmedida, um povo, uma multidão ainda que esparsa, caminha, alavanca novas memórias. E sua potência é tanto maior quanto mais for liberada de sentido. Este passa a ser agora a experiência que acontece interiormente, silenciosamente. Livre das apologias, ganha sentido extremo, é uma vibração. Não aceitamos o papel de que somos um Brasil, de que somos um povo, de que temos a submissão e a docilidade como natureza, que somos fáceis e liberais e, no entanto, malandros e capciosos.

Uma rebelião começa a se agitar dentro da gente, por isso muitas vezes a hostilidade é apenas uma força de expressão da repressão que sofremos pelo enfadonho sentimento de patriotismo, nacionalismo, regionalismo que não é nosso. Podemos colocar mesmo tudo a perder, mas é para que possamos ganhar outra legião que quer se encontrar, em lugares não oficiais e pouco prováveis, com redes de comunicação talvez pouco habilitadas, ainda cheirando a perseguições, invasões e espionagens, mas tateando movimentos de ruptura. Frente a todo maquinário de produção, estamos na difícil tarefa de nos produzir, entre certa distração e até de movimentos erráticos que podem inclusive nos causar mais dor, mas estamos profundamente desinteressados do lugar-comum, arriscando abrir mão do que dizem ser segurança para apostar em algo que requer afinidades, uma nova maneira de sermos humanos, uma inauguração, suportando e resistindo, mas ameaçadores também: propor um presente, ainda que insólito, e acima de tudo desafiador, porque não somos bandeiras, não somos espelhos da sociedade buscando representação ou um lugar ao sol, e não estamos interessados em parecer razoáveis.

[1] Disponível em: <http://www.correiobrasiliense.com.br/app/noticia/cidades/2013/06/12/interna_cidadesdf,371040/3-7-mil-militares-do-exercitovao-atuar-na-copa-das-confederacoes.shtml&gt;.

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